Sobre Joãozinhos e Alessandrinhas.
Confesso que sempre invejei o Joãozinho.
Nada relacionado com sua inteligência, sua voz bonita ou seus brinquedos sempre mais legais e de última geração. Invejava mesmo porque desde a 3ª série ele já sabia que queria ser quando crescer. Olhava estupefada como ele afirmava com tanta certeza a profissão que queria galgar em tantos muitos anos pela frente. Ficava ali, parada, tentando descobrir também. O que eu queria ser quando crescer? Arquiteta? Astronauta? Professora? Nenhuma resposta.
Os anos foram passando e foram aparecendo muitos outros Joãozinhos na minha vida. Sempre com aquele brilho no olhar e aquela certeza de que nasceram para seguir um caminho definido. Eu, inquieta (e um tantinho invejosa), me perguntava quando essa luz ia aparecer também para mim. Ficava esperando acordar um belo dia com a grande revelação. Tudo o que eu mais queria era ser um Joãozinho!!!
Chegou então a época em que tudo tem que ser decidido, natural ou compulsoriamente (no meu caso, opção B), O VESTIBULAR. Anos nefastos, anos de dúvida, de crises existenciais sem fim, de muitas cobranças. De um lado, estavam todos os prontos para seguir os caminhos que sempre souberam que lhes pertenciam... e do outro, eu e mais outras Alessandrinhas que estavam a ponto de praticamente jogar uma moeda pra cima e deixar a sorte decidir. Éramos um grupo anônimo. Poucos eram os que tinham a coragem de externar a dúvida e a insegurança de não saber quais seriam os próximos passos.
Escolhi por eliminação. Fiz. Gostei. Duvidei. Desisti. Mudei de curso. Perdi. Tentei de novo. Passei. UFA! Ufa??? Gostei. Não gostei. Duvidei. Duvidei. Duvidei de novo. Formei. Sempre achei que o sofrimento acabava aí. Mas que nada, minha gente. Aí que vem a parte mais difícil.
Continuo ainda sem saber qual é o meu dom. Mas já parei há muito de esperar que um dia eu me torne um Joãozinho assim, da noite para o dia. Acho que para algumas pessoas simplesmente não há revelação. Seremos sempre Alessandrinhas duvidando, querendo, tentando. E não há nada de errado com isso.
Vejam bem, não estou dizendo que escolhi o caminho errado, apenas que não há uma placa que brilhe em letras vermelhas na minha vida dizendo: é isso e APENAS ISSO que quero fazer da minha vida. Há sim um punhado de coisas que simpatizo e que faria, fiz ou faço com gosto. Mas vira e mexe a dúvida paira pelo ar. "Será?"
Culturalmente somos inclinados a pensar que nossa profissão define quem somos no mundo capitalista. Grande parte da nossa trajetória é guiada para um objetivo profissional. Títulos, mestrados, doutorados. Os pais enchem a boca para falar de seus filhos doutores, mestres, estrelas de tv. Claro que o que fazemos é parte do que somos, mas é consequência e nunca causa.
Quem vive apenas para o trabalho não vive. E a recíproca é verdadeira para quem vive para o hedonismo. Somos feitos de muitas faces, de muitas verdades. A sociedade bate palma para o status e ignora o caráter. Somos criados para sermos importantes, não para sermos éticos.
O desafio do negócio no fim das contas não é descobrir o que você quer fazer quando crescer (mesmo que este seja um grande desafio por si só). É conseguir equilibrar profissional e pessoal e dar o máximo para desenvolver e viver bem ambas as partes. Sendo um Joãozinho ou não (agradeça se você teve a sorte de ser um!), o que importa mesmo não é o que você faz da vida... e sim como você faz para viver a vida.
Por um mundo mais equilibrado e consequentemente mais feliz. Para os Joãozinhos e para as Alessandrinhas. Amém.


5 comentários:
eu, sinceramente, gosto de ser uma alessandrinha. joãozinhos são mente fechada e - normalmente - só querem aquela coisa pro resto da vida. não experimentam, não procuram, não duvidam, não vivem.
mais alessandrinha que eu, amiga? meio impossível! mas a cada mudança, me descubro mais e mais, e percebo que que cada indecisão afirma mais quem eu sou e quem quero ser. ponto.
É mais ou menos assim pra todos nós Alessandra. Acredito que Joãozinhos não existem na vida real, são seres que enxergamos, sempre nos outros é claro, mas que se formos analisar a vida de cada indivíduo que conhecemos verificamos que no fundo somos todos alessandrinhas...
e não se iluda, esta sensação não passa com o tempo, a vivência ou a idade.
Seremos sempre alessandrinhas em busca de algo que talvez não nos pertença ou, quem sabe, um dia alcançaremos.
achei o texto fantástico! talvez em grande parte porque .. tarãn!me identifico. hhee
e acho que existem dois grandes problemas nessa historia de decidir profissao : 1. com 18 anos escolher o que se vai fazer pelo resto da vida sem nao ter tido qualquer experiencia profissional ou de conteudo alem do vestibular
2. essa ideia de dom, de vocacao. acho que a gente tem interesses, mas no final a gente so pode escolher dento do que a gente conhece, do que nos contaram e isso é muito limitante.
eu estou feliz com a minha escolha, mas isso nao quer dizer satisfeita. e acho que a gente nunca vai deixar de se questionar, só aprende a nao ficar "empacada" por isso, ate porque o mundo (e as contas) nao param porque a gente esta questionando nossa carreira, ne?
Adorei o texto e concordo com o comentário que diz que somos todos "Alessandrinhas". Estamos sim sempre em busca de algo novo, porque o ser humano é insatisfeito por natureza. Acredito que os Joãozinhos, se existirem, não são pessoas verdadeiramente satisfeitas e realizadas...
Gostei do seu texto, me identifiquei tb!rs Estou te seguindo! Bjs.
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